Como as pessoas podem usufruir e buscar conhecimento para uma produção de uma consciência verdadeira?
Sabemos que a educação é um direito de toda pessoa, direito de ter acesso a práticas voltadas para alargar seus horizontes.
Quem são os excluídos?
Os sem- escola? E os sem-terra, sem-teto, sem-emprego, sem-salário, sem-saúde, sem-camisa etc. Essa imensidão de excluídos precisam ser incluídos, o mundo exerce uma pressão imensa sobre as pessoas. Obscurecendo a consciência, pois a ideologia é a própria organização do mundo.
Os vários estudos sobre a historia da educação brasileira mostram que, embora as diferentes reformas ocorridas com o propósito de ampliar as oportunidades educacionais tenham levado a expansão do numero de escolas, jamais conseguiram incluir alunos que nunca tiveram acesso a escola. Ao contrario, serviram para eliminar aqueles indesejados através de mecanismos sutis de descriminação aumentando o contingente dos excluídos por evasão e repetência.
O que ocorre na escola? Os alunos não possuem habilidade? Constata teoricamente a preocupação da escola pelo processo de escolarização de seus alunos nos diferentes projetos existentes no plano escolar; projeto pedagógico; projeto de reforço; diagnostico de alunos; temas transversais envolvendo diversas disciplinas etc. os discursos parecem condizentes com as propostas, no entanto os dados de observação das aulas evidenciam uma grande distancia entre a intenção e a ação.
Na maioria das vezes os planejamentos são meras atividades burocráticas a ser cumprida devido a exigência administrativa ou pedagógica e não como uma referencia tanto para a ação no cotidiano como para avaliação dessas ações.
Atribui-se então o fracasso ao próprio aluno sem se ater ás condições de aprendizagem oferecidas pela escola e a outros fatores intra-escolares. Diante disso na realização diagnostica deve-se ultrapassar a dimensão individual e abarcar também as implicações do contexto social.
E as Aulas de Recuperação? E o Conselho de Classe? Ai, Ai tornam-se repetição mecânica e a relação estabelecida com o aluno não resulta produtividade. Se o professor profetiza que o aluno (a) não será bem sucedido, isso acaba acontecendo porque o professor tende a lidar com ela como incapaz, não permitindo a aprendizagem e desenvolvimento.
A falta de fundamentação teórica que norteia o professor ocorre com frequencia, mesmo sabendo que o conhecimento deva ser o alicerce da sua formação.
De fato a realidade que se impõe a figura do professor, é nada animadora. A começar pela desvalorização e por certa aversão em relação a ele, uma imagem de profissão de fome, de pouco prestigio social, sem poder de decisão.
Há uma representação coletiva cristalizada que se manifesta em forma de preconceitos. É nossa realidade e tudo isso nos possibilita compreender melhor a pratica docente como a historia pessoal e familiar influenciam a percepção da criança pobre e sua família, a relação que se estabelece com os alunos e com os demais membros da hierarquia, as concepções sobre ensino-aprendizagem e que acaba refletindo em sua ação pedagógica.
ADORNO, Theodor (1995) Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra
UM ESPAÇO ESPECIAL PARA TROCA DE NOVOS CONHECIMENTOS, NOVAS AMIZADES...
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- Profissional Inscrita na ABPp Nº 821 Atendimento Psicopedagógico a crianças e adolescentes com: Dificuldades de aprendizagem em geral. Uma Pedagoga e Psicopedagoga que acredita na afetividade e humanização atraves da educação.
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Quando cursamos licenciatura, está presente um forte comprometimento em se educar.
Ler é a arte de desatar nós cegos! Tanto para aprender como para ensinar é prática imprescindível.
Existe um 'livrinho de bolso' chamado Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire que deixa insuportável não considerá-lo como essencial a todos os que desejem iniciar estudos com o objetivo de se tornar 'professor'.
Mas quando alguém se torna professor?
Certamente quando perde a dimensão daquilo que faz do processo ensino-aprendizagem ser o que é.
No primeiro capítulo intitulado 'não há docência sem discência', ele demonstra qual a percepção de um educador comprometido com a educação, a ponto de fazer indagar sobre quais são as reais competências e habilidades que devem ser desenvolvidas no processo de formação...
Opa; escrevi formação!
Pena que não se perceba a dimensão prática do método Paulo Freire aqui no Brasil, pois educar para ele, não é formar, fazer reproduzir, mas criar, desenvolver, superar.
'O educador democrático não pode negar-se o dever de, na sua prática docente, reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão... '
Quantos nós se percebe nesta simples frase, pois, o quanto depende do educador, e do educando?
Tendo como interlocutores universitários, adultos e já 'resolvidos', sujeitos que já escolheram e que se dispuseram a gastar uma boa quantia em dinheiro como meta para atingir o objetivo, o quanto este deve querer?
Note que enquanto tentamos desatar este nó, o acirramos mais ainda. Afinal, por que estamos estudando?
É comum, nos corredores da universidade, ouvir educandos das áreas de exatas e biológicas, cursos que também são oferecidos como licenciatura, tecer todos os tipos de comentários pejorativos às disciplinas pedagógicas – até se entende a ojeriza destes, pois entram com a pretensão de se tornarem profissionais como primeira escolha e o dar aulas; só se for o caso.
Entretanto, esses comentários são comuns também entre os educandos da área de humanas; como desatar este nó?
Continuando a transcrição do parágrafo já citado anteriormente, lemos:
‘... Uma de suas tarefas primordiais (do educador) é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com quem deve se 'aproximar' dos objetos cognoscíveis. E esta rigorosidade metódica não tem nada que ver com o discurso 'bancário' meramente transferidor do perfil do objeto ou do conteúdo... '
Percebemos assim, que também depende do educador como um agente motivador, pois o que se espera deste é uma leitura constante da realidade para, a partir do entendimento, inovar, construir, superar o cotidiano etc.
Pois, continua Paulo Freire ‘... Essas condições implicam ou exigem a presença de educadores e de educandos criadores, instigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e persistentes. Faz parte das condições em que aprender criticamente é possível a pressuposição por parte dos educandos de que o educador já teve ou continua tendo experiência da produção de certos saberes e que estes não podem a eles, os educandos, ser simplesmente transferidos. Pelo contrário, nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo... '
Isso impõe a necessidade de entender a educação como um processo dinâmico, mas mesmo nos bancos universitários, que deveriam criar e recriar saberes persiste a inércia, algo resistente às inovações, ou seja, nos colocam sentados sobre um livro de história.
Aqui não falo de sistemas educacionais, mas da educação em si, como uma busca da plenitude pelo sujeito visando à superação daquilo que se está sendo, portanto, a liberdade entendida como a capacidade inerente a todo o sujeito de se transformar.
Possibilidade de escolher, como Sartre nos propõe.
Então, ‘... Só assim podemos falar realmente de saber ensinado, em que o objeto ensinado é apreendido na sua razão de ser e, portanto, aprendido pelos educandos'.
Quer se construir como educador?
Leia atentamente este livro.
Íntegra de entrevista: Antônio Nóvoa
Gostaria que o senhor listasse os maiores problemas que observou em seu contato com a educação brasileira.Para alguém que está fora do Brasil, esta é uma pergunta muito difícil. De um olhar exterior, grande parte dos problemas da escola, no caso brasileiro, estão fora da escola. Estão em situações de pobreza, de redes sociais muito frágeis, um frágil compromisso social com a escola pública. Isso é verdade em relação às classes populares, muitas vezes por situação de ignorância, mas é verdade também do lado das elites, que no Brasil me parecem pouco comprometidas com a escola.Por que isso acontece?Certamente, há muitas razões históricas, de cultura e colonização. O compromisso com a escola é historicamente mais frágil nos países católicos do que nos protestantes. Mas há muitas razões das últimas décadas, de algum descomprometimento das elites, que preferem enviar seus alunos a escolas particulares, não sentem essa responsabilidade sobre o bem público que é a escola.Há ainda um segundo leque de problemas que estão dentro da escola. Sentimos que às vezes há uma generosidade dos professores, um voluntarismo. Há gente boa, com algum compromisso e vontade de mudar. Mas, para quem vê de fora, o que há é a sensação de uma grande desorganização da escola. Há muitas atividades, mas fica a sensação que a organização regular, cotidiana e sistemática da escola deixa muito a desejar. Há muita agitação, muitos projetos, mas pouca coerência e pouca consistência. Há, ao mesmo tempo, uma grande burocracia, sem dúvida.O que caracteriza melhor a escola é, ao longo de um ano, ao longo de dez ou vinte anos, ter um conjunto de atividades regulares, sistemáticas, de ensino. E nos Brasil se tem a sensação que se está a inventar o mundo todos os dias. Troca a política educacional, trocam os governantes, os professores mudam muito. Os professores também faltam muito, o que na Europa nos surpreende muito. Aqui os alunos têm sempre aulas! Se o professor não pode vir, é substituído por outro, mas há uma regularidade cotidiana no trabalho do aluno, que por vezes não se sente no Brasil.Em que medida a capacitação de professores melhora a qualidade da educação? Como deve ser feita?Nos últimos 30, 40, 50 anos houve muita teoria educativa, pedagógica, reflexão sobre a educação. Mas quando vamos escavar em profundidade, chegamos sempre a conclusão que o professor é uma peça absolutamente central da escola. Podemos ter todas as teorias, mas se não tivermos professores extraordinariamente bem formados, não conseguimos segurar a qualidade do ensino.Na formação inicial dos professores, há um momento muito importante, que nós chamamos de fase de transição. É quando eles saem das universidades e vão começar a ensinar. Esses primeiros anos são centrais e têm sido descuidados no Brasil, contrariamente a outros sistemas educativos. O professor aprendeu técnicas e métodos na faculdade, mas onde ele aprende a ser professor é nesses primeiros anos de exercício profissional. A pessoa acaba seu curso, entra na escola, muitas vezes fica com as piores turmas, nos piores horários e é deixada ali em uma "batalha de sobrevivência". E isso é dramático, porque os professores acabam por criar certas resistências em relação a profissão que não lhes permite serem bons professores.O que poderia ser feito nesse sentido?Criar parcerias entre as escolas, universidades e os poderes políticos para assegurar um acompanhamento. Uma coisa simples, nem que fosse todas as semanas, na sexta-feira, das cinco às seis da tarde, há uma reunião de reflexão com os professores. Nem que fosse introduzir uma hora de reflexão por semana, isto só por si já traria melhorias inacreditáveis no acompanhamento dos professores. Uma reflexão coletiva sobre as maiores dificuldades da semana, quais ele conseguiu superar. Podem ser às vezes coisas muito pequeninas, não de grandes programas, que melhoraria muita coisa na capacitação dos professores.Os professores devem ter capacidade de participar do projeto educativo da escola. Cada escola tem que ter seu próprio projeto, baseado em sua equipe pedagógica, em um determinado conjunto de objetivos. A escola não pode ser apenas uma espécie de serviço burocrático, em que todas são iguais, que funcionam da mesma maneira, com os mesmos projetos.E a formação continuada?A formação continuada é o que pode ajudar o professor a ser melhor e a ter práticas de ensino mais eficientes. Mas é preciso que ela facilite o trabalho dos professores e não que complique ainda mais. Os programas de formação devem ser uma ajuda na vida dos professores e não mais uma tarefa, mais um aborrecimento. Devem ajudar em duas dimensões: a pensar e organizar o trabalho escolar. Isto é, deve estar dentro das escolas, não deve ser mais um conjunto de teses e teorias. E, ao mesmo tempo, esse trabalho de formação deve ter centro na equipe pedagógica dos professores, e não reforçar práticas individualistas. O trabalho do professor complexidade tão grande que é inimaginável pensar que possa ser resolvido individualmente. Os problemas que a escola enfrenta só podem ser resolvidos de maneira coletiva, por meio de pessoas que refletem em conjunto sobre eles.Ser professor hoje é mais complexo do que foi no passado?É muito mais difícil. Por duas grandes razões. Porque todas as crianças hoje em dia estão na escola. E no passado não estavam. Há 50 anos, estavam na escola apenas as crianças que estavam convencidas, pelas famílias, que a escola era uma coisa boa. Hoje, na escola está toda a gente. Ricos e pobres, os que acham que a escola tem sentido e os que acham que não tem sentido nenhum, toda uma enorme diversidade. Isso cria uma grande perturbação na escola entre os professores. Uma vez uma professora americana falou em um congresso "O que eu gosto mesmo é ensinar, dar aulas. No entanto, eu perco mais de 90% do meu tempo para tentar por ordem na classe, para tentar criar condições para que eu possa fazer o que gosto". Esse trabalho, 50 anos atrás, os professores não precisavam fazer.Isso é comum tanto no Brasil quanto na Europa?Tanto no Brasil quanto na Europa. Julgo que os problemas da educação são os mesmos no mundo inteiro, mas têm uma dimensão muito diferente de um país para outro. É evidente que no Brasil eles têm uma dimensão, uma profundidade muitíssimo maior.A sociedade espera muito dos professores. Qual a contrapartida o governo deve oferecer aos professores para que isso aconteça? Salário de professor interfere na qualidade?Se não houver melhoria nos aspectos do ponto de vista salarial, do prestígio social, tudo o resto é impossível de conseguir. O que acontece no Brasil, e é uma situação quase única no mundo, são professores que trabalham em duas escolas, em dois horários ou até três. Isso é evidentemente impensável. Não há possibilidade do professor ser bom se ao meio dia corre de uma escola para outra, à noite vai para outra escola. Os professores têm que ter o salário bom, fixarem-se em uma escola e dedicarem a essa escola o melhor de sua atividade profissional. Na Europa, ou mesmo em Portugal, um professor primário tem um salário, por vezes, superior a um professor de universidade. O salário de um professor no meio da carreira pode ser qualquer coisa da ordem de US$ 4 mil. Estamos a falar de um prestígio simbólico que dá ao professor uma responsabilidade.A sociedade deve quase tudo a escola. As escolas se transformaram em um amálgama de coisas, onde se faz tudo, desde a parte da atividade física, da sexualidade, da saúde, do meio ambiente, da cidadania...e ninguém sabe verdadeiramente o que é central e o que não é. As sociedades contemporâneas, do século 21, têm que assumir uma maior responsabilidade por essas coisas e deixar às escolas um trabalho mais restrito, centrado sobre as questões da aprendizagem do aluno. Sei que isso é muito difícil, é mais difícil ainda no Brasil, onde a dimensão do problema social é tão grande que a escola não pode e não deve ignorar. Mas a escola não pode fazer tudo e fazer tudo malfeito. Porque o que nós notamos em muitas escolas é que os alunos, por cinco, seis anos, tiveram milhares de atividades, projetos é hoje de uma iniciativas, mas chegam ao fim dos oito anos e não sabem o mínimo das aprendizagem básicas escolares.Qual seria o país que hoje possui uma escola pública modelo?Os modelos de escolas mais fortes são dos países nórdicos, da Suécia, da Finlândia, e estamos a falar de três ou quatro séculos de responsabilidade e compromisso social com a escola. É uma longa história, não são três ou quatro anos, nem três ou quatro décadas
Não é fácil colocar em pratica o que sonhamos, pensamos e idealizamos. Meu intuito na verdade é compartilhar algumas reflexões sobre o papel da aprendizagem na formação do sujeito, formação do professor, psicopedagogo, e de todos os profissionais na relação de ensinantes e aprendentes.
Pois cada sujeito tem sua historia sua singularidade e a psicopedagogia nos coloca numa dimensão de complexidade existente para a compreensão do ser humano nos processos de aprender, que implica em grande heterogeneidade de possibilidades.
Precisamos refletir a respeito da formação docente das pessoas concretas que tem uma vida de luta nas escolas brasileiras. Assim como se cobra intervenção individualizada com diferentes alunos e alunas, também precisa considerar as diferenças desses professores com sua historias de vida, suas formas de interação com outras pessoas, sua construção de conhecimentos e sonhos.
A formação do professor é um tema que necessita ser olhado de perto, com uma nova forma de olhar que modifique a ótica de ver a função dos professores, recuperando sua grandeza. A cultura do fracasso presente em nossas escolas não dependerá exclusivamente da formação do professor, sabemos que uma serie de fatores contextuais interferem no processo. O êxito dependerá muito da participação do alunado.
Enquanto a formação do educador é preciso perguntar, por exemplo: Qual sua alegria no trabalho? Seus sonhos mais profundos de realização? Por que se tornou professor? Por que permanece na profissão? Provavelmente está vinculado á sua condição econômica, as circunstâncias sociais de sua vida, falta de opção etc. É necessário que ele se interrogue sobre suas escolhas, práticas desejos, limitações e possibilidades.
É sabido que os cursos por si só não modificam nossas representações, é preciso ter consciência do fazer do professor num compromisso maior com sua profissão. Muitos executam bem suas obrigações e sem duvida permanecem nesta profissão por toda uma vida e em muitos momentos ainda se encantam com ela, dando-nos o passaporte de nossa singularidade.
Formação do professor para a diversidade, falamos tanto nesta questão, mas será que todos têm conhecimentos específicos nessa área? De uma forma geral a formação para a diversidade começa em nos assumirmos como pessoas diversas, aprendendo a todo o momento com a diversidade dos outros. Tolerar que o outro não seja nosso espelho, olhar alem de nós. Talvez a tolerância seja uma das atitudes interdisciplinares que mais temos que cultivar, quando formamos professores para a diversidade.
Nas aulas se evidencia uma grande distancia entre a intenção e ação. Daí surgem as questões relativas á dicotomia teoria e pratica, isso nos leva a pensar sobre a formação dada nos cursos de preparação de docentes, se aquilo que se ensina, se discute, visando “preparação” ou ”aperfeiçoamento pedagógico” acaba sendo mero adorno, algo inútil e inadequado. Na maioria das vezes o planejamento é visto com mais uma mera atividade burocrática a ser cumprido devido á exigências administrativa e não como uma referencia para ação e avaliação dessas ações. Como conseqüência ainda vê professores transcrevendo planos de anos anteriores ou de outros colegas que permaneciam em gavetas ou arquivos. E as representações dos professores acerca dos alunos aprender e não aprender prevalecem as mesmas concepções atribuindo o fracasso escolar ao próprio aluno, considerando-o portador de algum atraso no desenvolvimento psicomotor, cognitivo, lingüístico ou emocional (conversa muito, é revoltado, fala errado, não tem assimilação, lento, não faz lição de casa etc.) ou então á deficiência ou desestruturação familiar (pais não vivem juntos, pai alcoólatra, pais não acompanham o filho, mãe trabalha fora, pais brigam etc.) sem se ater ás condições de aprendizagem oferecidas pela escola e a outros fatores intra-escoalres
Vale assinalar que essa concepção da dificuldade de aprendizagem centrada no aluno como portador das deficiências e dificuldades pessoais esta superada na pesquisa e literatura educacional, cujo foco esta mais voltado aos fatores intra-escolares, como também aos de ordem social, econômica e política envolvidos na educação.
A falta de fundamentação teórica que norteie a ação do professor ocorre com freqüência embora o conhecimento deva ser o alicerce de sua formação.
De fato a realidade que se impõe ao educador, principalmente á figura do professor, é nada animadora. Ao começar pela desvalorização e por certa aversão em relação e ele, uma imagem da profissão de fome, de pouco prestigio social, sem poder de decisão. Na nossa realidade penso que se trata da nossa realidade. Como afirma Nóvoa é importante recolocar os professores no centro do debate educativo pois as soluções surgem a partir das percepções e representações que os próprios professores tem de suas praticas de seu espaço e dos limites de suas ações. O processo sem duvida envolve reflexão e autooconhecimento, embora observar seu próprio trabalho e mazelas seja uma tarefa muito árdua para qualquer pessoa.
Para tentar compreender o que é o homem é preciso buscar conhecimentos multidisciplinares na sociologia, na antropologia, na pedagogia na psicologia, na biologia, na historia das humanidades, nas religiões, nas artes etc. o que se pretende com isso é encontrar um caminho para a diferenciação nas diversas naturezas.
A aprendizagem é dificultada quando o educador não permite que o aluno se reconheça como sujeito pensante.
Antes da criança entrar na escola ela é reconhecida socialmente a partir de seu pertencimento a uma família “filho de fulano” a referencia será sempre os pais, após ingressar a escola a situação se inverte e são apresentados como “pais de fulano” são fatores importantes para a constituição da identidade e para aprendizagem, já que aprender só é possível a partir de reconhecer-se o que implica em ser reconhecido.
Espero que este artigo contribua para alargar nossas reflexões sobre nós mesmos, fortificando nossas buscas na relação de ensino/aprendizagem.
Perceber no ato de aprender é dar-se conta do que acontece ou pode acontecer ao seu redor, com a percepção e o entendimento é possível o “significar”.
O fracasso escolar é um fenômeno recente que surge com a obrigatoriedade da escola no fim do século XIX e aparece como uma das questões importantes da contemporaneidade. O sofrimento do aluno e do professor aparece como sensação de desamparo na busca de culpados (pais, sistema educativo, instituição) a falta de resposta demanda a uma angustia paralizante.
Professor/aluno, educador/educando, ensinante/aprendente, essas relações se instituem em aprendizagem, mas se situam em lugares diferentes tratando de níveis distintos do aprender.
A relação professor/aluno implica numa aprendizagem relacionada a conteúdos formais de uma determinada disciplina. A relação educador/educando implica numa aprendizagem relacionada a questões mais amplas, segundo os ideais de uma cultura e moral de um povo. A relação ensinante/aprendente implica numa relação transferencial que se define a partir de lugares subjetivos, não dão conta dos posicionamentos singulares diante do conhecer e aprender. Nesta relação aquele que ensina deve perceber que enquanto ensina, aprende sobre o outro, sobre ensinar, sobre si mesmo.
Um professor não se transforma em educador ao mudar seus pressupostos metodológicos, pois não é isso que o define. Apesar de estarmos falando de lugares objetivos e de um conhecimento também objetivo permeados pela relação ensino/aprendizagem cada um tem seu papel definido socialmente. Situam-se em lugares distintos e tratam de aprendizagens diferentes.
A psicopedagogia busca compreender a subjetividade constituída pelo desejo de saber e pela demanda de conhecimento, não busca compreender o homem, mas o sujeito.
O pensamento é uma instancia psíquica pessoal, um mundo subjetivo próprio separado da subjetividade materna.
O texto se propõe a uma reflexão da aprendizagem na formação do sujeito. Encontra-se em todos os níveis educacionais do curso primário á universidade (mesmo na pós-graduação) muitas pessoas com a dificuldade de se “dispor a aprender” fica preso a imagem autobastante de eu ideal. Na posição “não preciso de ninguém”. Dispor-se a aprender implica em fazer renuncias sobre a idealização de si mesmo, é preciso dos outros, é trocar com os outros, é aceitar novas identificações para si próprio.
Estamos na época da alta modernidade com muitas dificuldades e perigos e muitas oportunidades também. Oportunidades para o avanço de bem-estar individual e social. Muitas das questões sociais não encontram saída por causa de questões da subjetividade. Dentre tantas organizações com esse problema particularmente a educacional.
O que dizer da escola primaria no Brasil com tal nível de evasão escolar? Na universidade, com tal nível de baixa criatividade?
A escola depois da família é a organização “cuidadora” por excelência. Os professores são importantes para as crianças e adolescentes se identificarem, principalmente se advém de família em que pai e mãe falham enquanto figuras cuidadoras. A escola junto com a família é o tipo de organização cuidadora que mais pode propiciar o surgimento do novo, do desenvolvimento criativo e pode aproximar-se da mãe, professora “suficientemente boa” que propiciam uma auto-imagem positiva no seu aprendizado.
A criança é o que o ambiente lhe permite ser, frente a um ambiente ruim congela o seu Eu verdadeiro e utiliza o falso para sobreviver, aguardando um outro ambiente onde possa descongelar.
Os professores têm grande responsabilidade na construção da cidadania pela sua pratica social. Sendo referencias e exemplos para seus alunos, como mediadores tem também a responsabilidade de ajudar a organizar a auto-imagem do outro. Estimular debates, troca de experiências, o respeito a diversidade e á democracia, o direito de ter opinião, a pratica da argumentação e da defesa de idéias que tenham como objetivo maior garantir a liberdade, a justiça social e a igualdade. Quanto aos coordenadores devem estimular a participação, não ter um projeto pronto e impor essa proposta. Há que levar em consideração o valor dos colegas.
Encontra-se também na universidade, estudantes infantilizados em vários níveis, estudantes com pouca vida interior próximo a situação de “não se dispor a aprender” e também de não conseguir usar da própria criatividade. A “incapacidade” de “ouvir” a organização passada na aula pelo professor referente ao que ler como ler, trabalhos com idéias de autores, sem que sejam citados; trabalhos copiados da internet são alguns dos indicadores do tédio que carregam esses estudantes robotizados, com falta de vida interna. Como, por exemplo, fazer essas pessoas, já no mestrado e doutorado, produzirem teses? Como criarem se não tem criatividade em suas vidas?
Vale ter em conta também a organização do ensino universitário no Brasil que rebaixou a qualidade da aprendizagem. O nível de exames e multiplicou o numero de unidades de ensino universitário precárias. Acenamos para o professor criativo, inovador em todos os níveis educacionais, trazendo esperança de uma vida melhor. Aquele que conseguiu sair do circulo vicioso da “robotização” e fazer parte dos “cuidadores” que seja de alunos implicantes, dos que não podem ouvir, aprender, etc. professores esses, preciosos, pois ajudam a romper com a robotização de criar profissionais robotizados nas empresas, organizações e na própria escola de novo.
Acompanhamos atualmente alunos portadores de deficiências cognitivas que sempre pôde freqüentar a escola, mas que apresentam em seu percurso dificuldade de aprendizagem são denominados alunos difíceis, fracassados. Quando falam de alunos difíceis referem alunos que apresentam queixas de dificuldades de aprendizagem cuja etiologia não se encaixa em quadros neurológicos, em geral tem comportamentos hiperativos e dificuldades nos processos simbólicos que dificultam a organização do pensamento. Mas demonstram potencial cognitivo com condições de serem resgatados em sua capacidade de aprendizagem.
Essa problemática vem da base da alfabetização que implica em falhas, não tem autonomia para conduzir seu percurso de aprendizagem nem as demandas escolares trazendo conhecimentos fragmentados e verdadeiros “buracos” não só na aprendizagem, mas na sua historia como sujeitos.
Alunos que permanecem na sala mas são desarticulados e desinteressados com as aulas, é preciso entender o que eles tentam nos comunicar com suas constantes recusas diante dos conteúdos pedagógicos, de dividir atenção do professor com os colegas, a “falta de limites”e agitação perante as propostas escolares. Uma boa proposta de trabalho seria um projeto envolvendo a historia de cada aluno aproveitando para ampliá-la como estratégia pedagógica na construção de sua aprendizagem, explicar o referencial teórico de onde partiu a idéia, justificando e fundamentando essa proposta.
Milhares de pais falam de seu sofrimento diante das dificuldades do filho, suas angustias por não saberem como lidar com as oscilações de comportamento deste, os fracassos constantes vividos no meio social e escolar, e os preconceitos enfrentados perante a sociedade. Ficam presos na culpa, mas é preciso uma mudança de posição subjetiva dos pais da culpa para a responsabilidade no sintoma do filho, não é preciso se defender frente a colocações ou apontamentos, mas aceitá-lo, enxergá-lo ouvi-lo de fato com suas necessidades e desejos pensando em formas de ajudá-lo a superar alguns de seus impasses na vida. Pensar sob outros ângulos e enxergar sob nova ótica.
O caso de Ana: Trata-se de uma adolescente que sempre freqüentara uma escola tradicional. Sua recusa a retornar ás aulas no inicio do ano letivo mobilizou a família a procurar alternativas para a garota não interromper os estudos. “Alem da recusa veemente, manifestava sintomas de forte angústia que a paralisavam quando o assunto tratado era “ir à escola”. Estava retraindo-se em casa, evitando programas sociais ou contatos com as amigas. Segundo o relato trazido inicialmente pela mãe, Ana apresentou dificuldades escolares desde longa data; ao que podia se lembrar, desde o inicio de sua alfabetização. As cobranças em relação á sua produção pedagógica sempre foram intensas, tanto por parte da escola como da família, e sua agenda era bastante ocupada com as aulas de reforço, psicopedagogos e psicólogos. No entanto, os tratamentos foram bastante descontínuos, haja vista a excessiva troca de profissionais ao longo dos anos.
A evidência maior de suas dificuldades aparecia no enquadre á rotina escolar: sintomas exacerbados de fobia e depressão vinham á tona diante da necessidade de ser integrada a um grupo de alunos e responder á rotina pedagógica. Foi necessário o desenvolvimento de um projeto individualizado para atender ás suas necessidades com horário especial e atividades voltadas ás suas possibilidades do momento. Era acompanhada por profissionais e no inicio não participava de nenhum momento coletivo da escola.
Os pais em especial a mãe, relutaram muito em aceitar a condição em que a filha se encontrava. Diziam que ela não tinha problemas tão graves para necessitar de um acompanhamento tão individualizado, chegando a procurar outra escola a qual foi recusada por Ana pelo fato de ter sido introduzida em sala de aula já no primeiro dia. Hesitante e desconfiada a mãe retornou com ela a antiga escola permanecendo todos os dias um tempo na recepção a medida que Ana foi adquirindo maior confiança estabelecendo vínculos com as pessoas sua mãe não mais permanecia a sua espera. Esse período foi marcado por muitas oscilações de humor por parte da aluna, momentos de depressão, intenso vazio e desanimo, nos quais era praticamente impossível implicar-se em qualquer atividade.
O trabalho com os pais, nesse período, focou-se mais no acolhimento das tantas duvidas que traziam a respeito do que Ana vivia, auxiliando-os a perceberem que as cobranças pedagógicas nesse momento só intensificaram ainda mais as angustias da garota. Era preciso ajudá-los a modificar a imagem de filha que ate pouco tempo estava tão bem sedimentada, e acompanhá-los no reconhecimento de necessidades muito primárias que Ana apresentava. Um marco nesse período foi a ênfase num reencaminhamento a um tratamento mais condizente á atual situação de Ana que sem duvida, conduziu seu processo a uma importante evolução, evidenciado o bom prognostico do caso.
A partir de situações vividas com os novos profissionais (psicanalistas e psiquiatras) responsáveis pelo caso fora da escola, foi se caracterizando, cada vez mais, a relação de intensa dependência de Ana com sua mãe. Na escola Ana reproduzia vinculações simbióticas, não tolerando a entrada de outro fora da “dupla”.diante de situações em que se via implicada em alguma atividade ou diante de alguma solicitação que lhe era feita diferente de seu desejo no momento. Ana simplesmente se retraia ainda mais, e seus sintomas de depressão acentuavam-se. Não podia nem sequer falar a respeito do que estava impossibilitando em realizar, vivendo apenas uma angustia sem nome.. .
Pontuarei algumas questões para reflexão sobre A constituição do Eu, através da relação com o outro, nas relações pedagógicas humanizadoras e afetivas. Não me proponho aqui a apontar caminhos ou respostas, mas colocar pensamentos e perguntas no intuito de alimentar a busca de instrumentos para a construção de novos espaços educativos.
A constituição do Eu, através da relação com o outro, é um tema trabalhado com ênfase na teoria do desenvolvimento de Henri Wallon. É a relação com o meio humano que nos torna humanos, constituindo pessoa com uma identidade única e própria. O que nos liga ao outro é a emoção. O amor é a emoção do reconhecimento da essência que une seres humanos. Nos humanos somos todos diferentes, mas da mesma essência, essas diferenças não podem confundir-se com desigualdade.
Aprender a amar é o quinto pilar do conhecimento para a educação da nova era. Pois o amor é a condição necessária ás relações éticas e transformadoras entre os seres humanos. É possível aprender a amar, quando aprendemos que as diferenças não tornam as pessoas melhores ou piores, apenas diferentes.
Quando me aproprio de informações recriando e compreendendo sua existência singular me torno autora dessa construção e de meu pensamento. A informação só faz parte do conhecimento do aluno, quando essa informação deixa de ser igual a que a professora lhe transmitiu.
É preciso despertar o prazer dos alunos em reconhecer a produção de sua autoria. Libertá-lo desse reconhecimento só através do olhar do outro. Valorizar o que eles têm de original libertar da repetição, estereotipia. Valorizar principalmente o prazer que se pode obter na autoria, na realização do desejo próprio.
Oferecemo-nos a eles como referencia, nunca como modelo a ser simplesmente imitado.
Para onde e dirige o olhar psicopedagógico? Quais são as implicações para a psicopedagogia? Uma questão fundamental com que se defronta são os processos emocionais contidos nos problemas de aprendizagem, que exigem respostas compatíveis tanto no plano dos referenciais norteadores, quanto na pratica do diagnostico e do tratamento das perturbações.
O psicopedagogo necessita de uma visão amplificada levando em conta seu mundo interno e externo, considerando o educando em sua inserção social, educacional e familiar, com enfoque psicanalítico clássico que contempla a questão da aprendizagem.
Antes de tudo o olhar do psicopedagogo dirige-se a existência em cada pessoa do seu interior, indagando dela o que a caracteriza como essencial única e individual. A observação profissional centraliza-se no contexto com esse ser, especialista naquilo que impede a pessoa de se nortear por si próprio e de se realizar.
O grau de distanciamento de contato passa a ser o fator principal a exigir atenção do psicopedagogo, uma vez que as dificuldades emocionais que se refletem sobre seu campo de atividades tem a ver, sobretudo com dificuldades de contato com esse ser. Quanto maior for o distanciamento do contato mais graves tendem a ser as perturbações psíquicas, mais graves tendem a ser, também os problemas emocionais que se encontram na área da psicopedagogia.
Em cada nível e grau de distanciamento há tipos característicos de perturbações psíquicas que se denunciam como problema de aprendizagem. Não se lida com tais problemas se antes não se conhecem os determinantes que dificultam ou impedem uma pessoa de ser ela própria e de se realizar plenamente. É função da psicopedagogia trabalhar pelo desenvolvimento de seres humanos inteiros, que se realizam plenamente como pessoas e que mantenham intactos suas condições interiores de sentir, pensar e agir de modo integral e verdadeiro. Isso se obtém através da autonomia e da liberdade de atuação do seu interior em cada um, sendo alcançado por meio de esforços de conhecimento das atividades do self (significa o nosso eu profundo, a maneira única de uma pessoa existir no mundo) sensorial associados a direcionamentos voltados aquilo que intrinsecamente a pessoa é.
Linguagem televisiva é um grande e influenciador mecanismo que faz parte de nossas vidas, onde ativa de forma intensa nossa atenção visual e auditiva, vivenciamos essas projeções e identificações repetindo modelo de cabelo, modas, profissões, etc. o apelo visual é muito forte e supera a linguagem oral ficamos presos a esses sentimentos de identificação sem muita margem para deles fugir, mergulhamos relativamente na fantasia, ficamos contaminados pela sedução das historias com final feliz, com a potencia, competência, beleza, riqueza dos personagens de novela, das propagandas dos mais variados produtos fazendo-nos desejar tudo aquilo. Sofremos, rimos ficamos ansiosos, com tudo o que vemos e ouvimos pela televisão, que entra sem aviso prévio em nossas casas.
A televisão pode fixar a criança em personagens que tenham a ver com seus desejos, medos, conflitos por tempo demasiado longo, mantendo a criança na fantasia, na onipotência, que são impeditivos do crescimento e da aprendizagem. Esses aspectos agregados aos novos modelos familiares, com ausência de casa de pai e mãe que trabalham geram, algumas vezes sentimento de abandono por parte da criança e culpa por parte dos pais. Mas a televisão, hoje em dia não é a maior vilã da historia, esse lugar no momento é da Internet, que fica fora do controle, enquanto a televisão pode sofrer relativa censura por parte dos pais e dos órgãos judiciais responsáveis por criança e adolescentes. O preocupante é o longo período que ocupa no dia-a-dia da criança desviando-a de brincadeiras motoras necessárias a sua idade. É importante que se converse sobre o que elas assistem, procurando descobrir que leitura fizeram e do que viram ajudando-as desenvolverem um pensamento critico entre o que é fantasioso e real.
Quanto aos problemas de aprendizado escolar a interação favorece o desenvolvimento e a linguagem. Para eles, há uma construção mútua e dinâmica do conhecimento. O que é considerado problema de aprendizado escolar? E quais os procedimentos adotados para resolvê-los?
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RESUMO
Este trabalho objetiva refletir sobre a prática educativa dos alfabetizadores que
atuam nas classes de alfabetização de jovens e adultos, na cidade de Quijingue Estado da Bahia.
Ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura,
fora de boniteza e alegria.
Paulo Freire
As turmas de alfabetização no município são formadas por: aposentados,
agricultores, pescadores. As salas de aula funcionam em escolas municipais.
A Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, coordenado pelo
francês Jacques Delors (SHIROMA, 2000), em documento produzido na última década do
século passado denominado Relatório Delors, propôs um novo conceito de educação:
EDUCAÇÃO AO LONGO DE TODA A VIDA, recomendando que se explore o potencial
educativo dos meios de comunicação, da profissão, da cultura e do lazer, redefinindo dessa
forma os tempos e espaços destinados à aprendizagem. O relatório suscita uma
“SOCIEDADE EDUCATIVA” e ao mesmo tempo “SOCIEDADE APRENDENTE
A propósito, tomamos os ensinamentos de PAULO FREIRE – grande teórico
brasileiro da educação de jovens e adultos – quando diz que “ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tomamos parte”. Eis, aí, no dizer de Paulo Freire, a sociedade educativa ao mesmo tempo sociedade aprendente. Não há como separar o estudante – jovem ou adulto – que participa do projeto de alfabetização, do agricultor
Como ignorar as dificuldades encontradas nas comunidades tais como: saneamento
básico, saúde, produção econômica, ausência ou não de renda, do aluno que pertence a essa
comunidade.
Nesse sentido, pensar metodologias inovadoras para o trabalho educacional a ser
desenvolvido com os jovens e adultos é pensar sob o aspecto da contextualização e interdisciplinaridade, é considerar o viés teórico do conceito de sustentabilidade e é, também, pensar uma identidade e uma consciência terrena. A metodologia segundo LIBÂNEO é “que dá colorido às aulas tornando-as mais dinâmicas e significativas”. Está comprovado que o aluno aprende o que é importante para ele.
No processo de ensino-aprendizagem torna-se imprescindível que a motivação ocorra
a fim de manter o interesse do alfabetizando nas atividades propostas envolvendo os seus
aspectos, físico, cognitivo e emocional. Vale ressaltar que o alfabetizador é de fundamental
importância, nesse processo, haja vista o seu papel de mediador da aprendizagem.
O alfabetizador ao estabelecer os primeiros contatos com o alfabetizando valoriza a
sua história de vida, seus sucessos e frustrações, alegrias e tristezas, em diferentes áreas da
vida e principalmente suas experiências.
O alfabetizando interiorano possui no seu entorno a seguinte realidade: (DESCREVER AS REALIDADES)...................................
O alfabetizador ao iniciar o processo de alfabetização privilegia o contexto. A
contextualização permeia todo o processo. Os alfabetizandos começam falando a respeito do
seu nome, a importância de se ter uma identidade, depois vão citando o nome dos seus
familiares, das escolas, igrejas, ruas, mercearias, barcos, animais, e outros objetos. Por
esta razão foi necessário evidenciar onde o aluno vive, considerando que este cotidiano serve como matéria de estudo. O alfabetizador além de contextualizar remete as suas ações ao trabalho interdisciplinar, incluindo noções de matemática, de ciências, de geografia, de história na leitura e escrita, etc.
A interdisciplinaridade é de grande importância no ensino de jovens e adultos por que
garante a coerência e unidade no processo de construção do conhecimento, evitando a
fragmentação dos conteúdos em compartimentos estanques e oportuniza aos alfabetizandos o diálogo, a análise da realidade onde vivem, o desenvolvimento do espírito crítico, a
autonomia tão necessária à vida cidadã.
Outro aspecto de grande relevância no decorrer do trabalho educativo diz respeito ao
prazer que o alfabetizando demonstra pela aprendizagem. As motivações são diferentes umas das outras. Os alfabetizandos querem ser alfabetizados para: ler a Bíblia, escrever cartas para filhos e amigos que moram distantes, ler jornais e revistas, nomes de produtos em mercearias no momento de fazerem suas compras, reconhecer dinheiro e etc. O importante é que a aprendizagem seja prazerosa.
O analfabeto que está sendo alfabetizado é aquele que passou o dia trabalhando na roça, pescando, caçando, enfrentando calor, dificuldades, as mulheres acompanham os maridos nas atividades do roçado, outras se dedicam a trabalhos domésticos. Diante disto, há
necessidade de um bom relacionamento entre alfabetizador X alfabetizando no decorrer das
aulas oportunizando a todos a alegria de estarem juntos partilhando a descoberta do ato de ler e escrever. O lúdico também tem sido utilizado no processo de ensino-aprendizagem.
A prática educativa dos alfabetizadores em algumas comunidades do município tem
concorrido para uma reflexão do trabalho que está sendo realizado, visando à utilização de
ações pedagógicas mais eficazes que concorram para a aprendizagem do alfabetizando. Isto
implica no repensar a prática, buscando novas formas de atuar, um novo jeito de ensinar e
aprender de modo que garanta a aprendizagem do jovem e do adulto.
No início do processo de aprendizagem da leitura e da matemática o alfabetizador
explora os acontecimentos ocorridos no cotidiano do alfabetizando a fim de contribuir para
uma aprendizagem significativa. Utiliza palavras referentes ao nome das aves, das frutas, dos peixes, árvores e etc. Outra ação que vem sendo desenvolvida é à saída dos alfabetizandos da sala de aula para vivenciar a realidade da comunidade, através de passeio a mercearia, possibilitando ao alfabetizando empregar a leitura para identificar o produto que vai comprar resolver pequenos problemas de adição e subtração, na hora do pagamento das compras, desenvolvendo, assim, seu raciocínio lógico.
Essa atividade permite que o aluno faça uma análise crítica das diferenças de preço
que existem entre os produtos oferecidos pelas mercearias e tome a decisão de só realizar suas compras onde ofereça o melhor preço. As atividades de alfabetização são realizadas de forma lúdica, contextualizada e interdisciplinar a fim de permitir a absorção da aprendizagem. Vários jogos são utilizados no decorrer das aulas, dentre eles: jogo da velha, quebra-cabeça, quadrado mágico, dominó, que favorecem o desenvolvimento do raciocínio lógico, a atenção, a percepção e a criatividade do aluno. O alfabetizador a partir do desenvolvimento dessas metodologias pode constatar maior interesse por parte dos alfabetizandos em freqüentar as aulas, obtendo melhor rendimento escolar.
O resultado desta prática vem nortear o trabalho do alfabetizador. Se os resultados não
são satisfatórios, o alfabetizador juntamente com o gestor e coordenador a partir dos dados
obtidos, revêem essa prática, selecionando o que foi positivo e abandonando o que não deu
certo, a fim de recomeçar novamente, e aprimorar a prática. O trabalho cultural local vem
despertando no alfabetizando maior interesse na aprendizagem da leitura e no desenvolvimento da cidadania.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
FREIRE, Paulo. Política e Educação. 7.ed. São Paulo: Cortez, 2003. (Coleção Questões da
Nossa Época).
_____. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e
Terra, 1997.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.
MORIN, Edgar. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. 8.ed. São Paulo:
Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2003.
SHIROMA, Eneide Oto. Política Educacional. Rio de Janeiro: DP&A, 2000
[1]
[1] Maria do Carmo Amambahy
Entrevista Celso dos Santos Vasconcellos
Intencionalidade: palavra-chave da avaliação
De nada adianta mudar ferramentas, se o professor continuar classificando os alunos em bons e maus
Quem quer fazer uma avaliação mais justa para ajudar o aluno a superar suas dificuldades pode começar mudando sua intenção no ato de avaliar. Essa é a visão do educador Celso Vasconcellos
Qual a definição mais abrangente de avaliação?
Vasconcellos < Avaliar é localizar necessidades e se comprometer com sua superação. Em qualquer situação de vida, a questão básica da avaliação é: o que eu estou avaliando? No sentido escolar, ela só deve acontecer para haver intervenção no processo de ensino e aprendizagem.
Porque o sistema de avaliação começou a ser questionado nos últimos anos?
Vasconcellos < Essa análise tem sentido se recuperarmos um pouco do papel da escola na sociedade. No século XVIII, a burguesia usava a escola para formar mão-de-obra e era uma justificativa para as diferenças sociais. A educação, além de fornecer homens-máquina para as indústrias que estavam surgindo, era um chamariz para a ascensão social. Essa situação se manteve por mais de 2 mil anos. Hoje o diploma não garante colocação a ninguém. Não se pode mais afirmar que uma pessoa formada terá um bom emprego, ou mesmo se vai ter emprego. Muitas escolas então usam atualmente o apelo da educação como superação: formar uma pessoa para ser melhor do que as outras. Com a mudança no mercado de trabalho e o avanço da consciência crítica dos educadores, é preciso quebrar a lógica de 10 mil anos da avaliação excludente.
Como a avaliação diferencia uma educação integradora de outra excludente?
Vasconcellos < Eu divido a prática de avaliar em quatro categorias. A primeira é o conteúdo, na qual se percebe o conteúdo cognitivo do aluno. A segunda é a forma de avaliar: dar notas ou conceitos? Fazer ou não uma semana só de exames? Dar questões longas ou curtas? Outra categoria é formada pelas relações que a avaliação estabelece na prática de ensino: posso mudar a avaliação sem mudar o tipo de aula? Como avaliar uma classe grande? A última, e a mais importante, é a intencionalidade. Mudanças nos outros aspectos sem mudar a intenção com a qual se avalia não levam a nada.
O que é então a intencionalidade?
Vasconcellos < Eu uso intencionalidade porque dá para brincar com as palavras intenção e realidade, ou seja, o desejo traduzido em práticas concretas. Precisa querer. A primeira questão a ser feita é: avaliar para que? Para localizar a necessidade do aluno e para atender à superação. Quando então temos um aluno, ou vários, que não estão acompanhando, é preciso parar para atendê-los. É elementar. Quando a dificuldade é localizada, o professor precisa se comprometer com a busca de uma estratégia e com a superação da barreira.
Mas o professor tem tempo na grade curricular para atender esses alunos?
Vasconcellos < É preciso rever conceitos, repensar práticas de aula, replanejar o calendário escolar, buscar alternativas. João Amós Comeno, pensador protestante, já dizia, em 1637, em seu tratado A Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos (Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa), que existiam três cavaleiros do apocalipse da educação: 1) a avaliação classificatória; 2) o conteúdo estabelecido sem sentido e 3) o professor falando o tempo todo. Essas três coisas já são denunciadas a tanto tempo e são realmente uma praga no ensino. Em Didática Magna, Comeno falava que o ensino precisava ser mais participativo. Ele comparava a sala de aula com a vida, ressaltanto o perigo das classes homogêneas e da padronização dos alunos. Ele dava o seguinte exemplo: na natureza existem flores diferentes; na sala de aula temos também de ter pessoas diferentes. É singelo, mas de um sentido político profundo.
Que tipo de perigos trazem esses três cavaleiros do apocalipse?
Vasconcellos < O conteúdo preestabelecido obriga o professor a cumprir um rol de temas. Por trás dessa exigência está a avaliação classificatória: se ele não cumprir essa lista de assuntos, ele vai ser julgado pelos colegas da série seguinte, pelos pais, pelo sistema, pelo vestibular como incompetente. Então o professor fica preocupado e quer cumprir o programa. Para conseguir isso, ele dá aulas expositivas, já que uma aula interativa e participativa demanda tempo, e aí o programa atrasa. Isso acaba com o processo pedagógico. Na minha opinião, o pior dos três cavaleiros é a avaliação classificatória. Ela interfere em todas as outras práticas. E se quiser acabar mesmo com o processo, podemos chamar o quarto cavaleiro: as condições precárias de trabalho. Na hora que o professor for parar para tirar uma conclusão dessa intencionalidade, ele vai se defrontar com isso. Ainda que ele queira parar, como é que fica o programa? Um aluno que não entende gera indisciplina, contamina outros. E agora esse professor tem problemas de aprendizagem e de comportamento. Parece exagero mas não é. O professor precisa estar fortalecido na sua convicção de que parar é necessário, para que ele enfrente todas as pressões. Ele precisa saber que a curva da aprendizagem não é linear. Ela é exponencial: uma base bem trabalhada, ainda que demore mais, leva a uma aprendizagem mais rápida no futuro. A nova intencionalidade pode se traduzir na prática de metodologia participativa em sala de aula, onde se faz a recuperação da aprendizagem no próprio ato do ensino. Eu não fico esperando ensinar para depois avaliar. Se o aluno participa, dialoga, já é possível perceber ali mesmo se ele não está entendendo. O trabalho de recuperação do aprendizado pode então se dar concomitante ao ensino.
Que peso as notas devem ter na avaliação de um aluno?
Vasconcellos < Nota é ridículo. Mas também pode ser democrática, se for pega como um indicador da situação do aluno naquele momento. Pode-se aplicar notas se você tiver em mente que ela pode ser dinâmica. Alguns alunos perguntam o que fazer para recuperar a nota. O professor deve perguntar o que deve fazer para recuperar a aprendizagem. Esse método classificatório interfere no psicológico do aluno, interrompe a relação dele com o objeto do conhecimento. Existe o currículo oculto, que ninguém pode negar: em sua trajetória escolar, o aluno aprende que o importante é a nota, pois é isso que ele deve perseguir para passar de ano, e não o prazer em aprender. Se a opção for por um sistema que não dê tanta importância à nota, mas sim ao aprendizado, isso precisa ser implantado desde as séries iniciais.
Que instrumentos ele pode usar em um novo processo de avaliação?
Vasconcellos < Uma coisa simples é o diálogo, a exposição dialogada. Mas existem técnicas mais ativas, como dramatização, relatórios, pesquisas, onde o professor pode perceber o nível de elaboração do aluno. A metodologia participativa é fundamental na concretização da nova intencionalidade. Outro método simples: pedir para o aluno dizer com as suas próprias palavras os conceitos apreendidos, para ver se houve internalização. Freqüentemente o estudante repete as palavras do professor ou do livro didático. O trabalho em grupo em sala de aula é importante, com um colega ajudando o outro. Ao invés de ter somente um professor na sala de aula, é possível ter cinco ou seis: os próprios alunos fazendo esse papel. Outra prática muito legal é você fazer monitoria: os alunos passam a ajudar seus colegas em determinadas disciplinas ou conteúdos. Como se pode ver, há uma série de iniciativas que traduzem essa nova intencionalidade em práticas concretas. São coisas pequenas que o professor já pode começar a mudar, sem precisar mexer no planejamento escolar. Claro que seria ótimo, por exemplo, se o professor tivesse 20 horas de trabalho em classe e outras 10 na escola, quando ele pudesse atender o aluno com dificuldades fora da classe, entrevistá-lo, conversar com ele. Isso seria excelente. No fundo, gostaríamos de chegar ao ponto em que o aluno desenvolvesse a competência de se auto-avaliar e avaliar o trabalho do professor. Isso é importante porque o aluno passa a se localizar no processo de aprendizagem. Essa é a verdadeira construção da autonomia que a educação moderna visa.
Mas a escola também deve se integrar nesse processo de mudança?
Vasconcellos < Existem algumas práticas que demandam modificações mais profundas. Os professores do segundo ciclo do Ensino Fundamental reclamam que não têm tempo com os alunos. Um professor de História da 5ª série, por exemplo, vê cada turma somente algumas poucas vezes por semana. Mas se ele acompanhar esses alunos até a 8ª, vai conhecê-los cada vez melhor. Isso exige somente uma reengenharia de horários, coisa que está ao alcance da escola. Se o professor já tem uma visão nova, a escola vai percebendo essas alternativas. Por isso é fundamental que o professor participe do processo de repensar o projeto pedagógico na condição de sujeito, não de objeto. Infelizmente, muitas mudanças ocorrem com o professor padecendo delas. Ele é simplesmente comunicado das mudanças. É o caso clássico da questão do ciclo no Estado de São Paulo. Em outras realidades, as escolas aderiram aos ciclos, por etapas. Em São Paulo os ciclos foram implantados de uma vez em 98. Porto Alegre vem fazendo 10 anos de caminhada com as escolas de lá. O Ceará colocou em 98 ciclos somente da 1ª a 4ª, por adesão, para no máximo 40% da rede. Aos poucos, outras escolas foram entrando no esquema novo. Isso parece pouco, mas não é. É mais demorado, mas evita-se o risco de o processo ser uma grande mentira. Queima-se a idéia do ciclo porque ele é implantado de maneira inadequada. Se a mudança é uma coisa violenta para o aluno, também o é para o professor. Não se muda por decreto. É preciso favorecer a mudança de intencionalidade. E aí entra então o estudo. O professor não faz uma avaliação diferente porque ele não sabe. O modelo que ele teve como aluno é o tradicional. Mesmo ensinando práticas diferentes de avaliação, os professores de Educação, na hora da avaliação, mandam seus alunos, futuros professores, pegarem o papel e fazer uma prova. Esse é um ponto sério. Outro ponto fundamental é o do projeto político pedagógico. Uma mudança fundamental passa pelo sujeito, mas também pelas relações dentro da escola. Não dá para discutir avaliação se não discutir antes que pessoa se quer formar: queremos reforçar a sociedade excludente que está aí? Se queremos, a avaliação tradicional está perfeita. Mas se sonhamos com uma sociedade onde todos tenham voz ativa, então é preciso modificar tudo. Philippe Perrenoud fala que mudar a avaliação é mudar a escola. Eu vou um pouco mais adiante. Digo que mudar a avaliação é mudar a sociedade. No final, o que está em discussão é um projeto de sociedade. Nós acreditamos em uma sociedade que tenha lugar para todos? É possível construí-la ou não? É preciso compreender o seu espaço de autonomia relativa e atuar em cima disso, sabendo que você não é o redentor da humanidade, mas também não está totalmente amarrado. Tem coisas que você pode começar a fazer, por isso que eu insisto muito em passos pequenos, mas concretos e coletivos em uma nova direção. Essa perspectiva do processo é muito importante no resgate da potência do professor, da alegria em ensinar. Quando ele percebe que existem práticas que ele pode começar a utilizar, sua auto estima começa a aumentar. O mesmo acontece com o aluno. Eu defendo a reunião pedagógica semanal, pelo menos duas horas por semana, remunerada. A ansiedade diminui só de saber que os colegas têm problemas iguais aos nossos.
O senhor disse que o professor precisa parar e fazer uma avaliação para depois atender aqueles que precisam de ajuda, e o passo seguinte seria a retomada, a mudança. O que o professor deve fazer para que esse processo ocorra em prol do aluno?
Vasconcellos < O professor precisa pensar qual será o caminho que deve seguir: uma mudança de metodologia? Uma outra forma de abordar o conteúdo? Um exercício complementar para ser feito em casa? Um atividade diversificada em sala de aula? Um trabalho em grupo? É preciso buscar uma alternativa, o que não se aceita mais é ver o problema constatado e não ocorrer mudanças. Não tem sentido o professor passar o fim de semana inteiro corrigindo provas e atribuindo notas e na segunda-feira entregar o boleto na secretaria, ir para a sala como se nada tivesse acontecido, bimestre novo, vida nova.
Como o professor deve expor ao aluno a avaliação feita no decorrer do processo?
Vasconcellos < A questão fundamental é saber qual o perfil de pessoa que se quer formar, de acordo com o projeto pedagógico da escola. Essa questão não é muito simples, pois nós perdemos muitos referenciais. A partir disso, o professor vai ter os critérios para fazer o relatório. Tendo isso claro, ele pode dizer quanto essa criança está se aproximando, ou não, dos objetivos. A vantagem do relatório é que ele permite ter uma idéia do processo, verificando como a criança vivencia o processo escolar. Mas é preciso ter noção desse processo, para não tornar o relatório uma ficha policial: "A criança é agressiva, dispersiva etc". Se o parecer for assim, prefiro a nota, por mais limitada que ela seja. De 1ª a 4ª série é mais fácil, pois um professor acompanha o aluno o ano todo. Já de 5ª a 8ª torna-se mais complicado, caso o professor não tenha um tempo semanal para ficar na escola e cuidar dessa tarefa. Muitas vezes os professores montam alguns tipos de relatórios e os apresentam independente dos alunos que estão sendo avaliados. É uma grande farsa. Mas se for inevitável, é possível criar uns 25 níveis de classificação e, dependendo do aluno avaliado, ele é enquadrado em um desses níveis. Se o professor acrescentar algum comentário pessoal, por exemplo, o processo torna-se transparente e eficaz. Sei que é muito fácil falar para os professores fazerem relatórios, mas muitas vezes eles não têm tempo, principalmente os de séries mais avançadas. Sinceramente eu acredito que, das quatro categorias da avaliação (conteúdo, forma, intencionalidade e relações), eu investiria mais energia na intencionalidade. Se eu tiver de decidir entre conceito e relatório ou ter mais tempo de intervenções em sala de aula, eu não tenho a menor dúvida: dou conceito e incentivo o professor a mudar sua prática no dia-a-dia.
Como o professor pode se capacitar para entrar nessa nova realidade?
Vasconcellos < Ele deve deixar o bom senso aflorar, fazer e depois discutir com os colegas. Isso é o mais importante. Depois ele pode partir para cursos e literatura. É interessante também o professor conhecer práticas que estão dando certo em outras escolas.
Vemos em nossa trajetória uma mesma realidade: alunos desinteressados pelo estudo, Professores desestimulados em ensinar. Será que a educação perdeu o seu rumo? Acreditamos que não. O que aconteceu foi que os tempos mudaram, e nós, continuamos presos a métodos de ensino ultrapassados. Continuamos a ensinar da mesma maneira que nossos avôs. Pegamos a revista e lemos, linha por linha, ponto por ponto. O que era para ser um instrumento de pesquisa tornou-se o elemento principal.
Hoje nossos alunos têm em suas casas computadores, televisões, jogos interativos. O que lhes proporcionamos em classe? Muitas vezes não temos recursos, nem mesmo para fazer um cartaz para motivar a aula. De alguma forma nós precisamos inovar para despertar em nossos alunos o interesse. Ler a lição é fácil, estimular que é difícil, pois só se estimula quando se está estimulado e muitas vezes o professor não está. Sendo assim é fácil saber o que vem na próxima aula. O filósofo Sócrates, descobriu um método diferente de ensinar, partindo do conceito de que cada um tem o conhecimento, e o mestre é apenas um instigador, este processo foi denominado de maiêutica, pois parte do princípio de ajudar os alunos a trazerem a luz suas idéias, assim como antigamente as parteiras ajudavam as mães a darem a luz a seus filhos . ( na realidade Jesus fazia isso muito bem, como grande mestre que foi ). É isso que precisa acontecer o professor precisa assumir o papel de instigador. Precisa interagir e despertar o aluno desse sono profundo. Fazer com que eles assumam a responsabilidade de pensarem e dizerem o que pensam a respeito do texto em estudo e não pensar por eles, falar por eles.
Enquanto alguns professores procuram um jeito de envolverem seus alunos; outros preferem somente criticá-los (é mais cômodo). Nada funciona sem envolvimento, sem entusiasmo.
A didática pode ser uma aliada do professor nessa tarefa de envolver. Em vez de leituras massacrantes; que tal pesquisa; reportagens envolvendo o tema em estudo; filmes; jogos?! Temos várias formas de buscar a participação dos alunos, fazê-los sentirem-se indispensáveis, importantes. Um aluno estimulado se transformará em um pesquisador, num participante assíduo. São maiores as chances de que ele leia as atividades por sentir-se seduzido a conhecer novas possibilidades Sem imposições.
Bom seria se o professor conduzisse suas aulas como se tivesse no teatro, onde tem-se o script, mas no desenrolar da peça a participação fundamental é do espectador. O aluno sempre tem que ser o ator principal da peça.
O professor deve ser um entusiasta, deve acreditar e terá a capacidade de fazer, de mudar, de transformar a realidade em que se encontra. Quando há entusiasmo, há ação.
A palavra está com você professor, você tem em suas mãos a fórmula para mudar essa realidade, basta entusiasmar-se, e terá coragem para mudar. Você verá a diferença na próxima aula.