Inclusão escolar, sonho ou realidade?
quinta-feira, 19 de novembro de 2009 by Reciclagem de Artigos in

Quais as dificuldades em intersubjetivizar com outras representações que fogem do nosso contexto pessoal?

A diferença da igualdade. Todos nós temos o mesmo direito de ser diferentes na igualdade. Isto é, somos todos seres humanos, e como tais, iguais. Contudo, nunca antes se valorizou tanto o direito natural de cada um de nós se expressar conforme suas próprias características individuais. Quer dizer, o fato de ser bonito ou feio magro ou gordo, inteligente ou nem tanto, ter duas mãos ou não, poder andar com nossas próprias pernas ou com ajuda, ser a nossa visão inferior ao do nosso vizinho, nossa audição aquém do esperado, e assim por diante, nada disso nos faz diferentes, continuamos iguais. A diferença está em que cada um de nós pode elevar a sua mais alta potência suas particularidades. O que nos faz diferente é se conseguimos ou não sobressair ao explorar nossas particularidades.

Este é o lado positivo da diferença. Porém, assim como a igualdade, a diferença pode nos ajudar ou prejudicar. Por isso, temos o mesmo direito a sermos iguais e a sermos diferentes. “Temos direito de ser iguais quando a diferença não inferioriza e direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”. (Santos)
Devemos primeiro, perguntarmos o que entendemos quando ouvimos falar de educação inclusiva. O que entendemos por Educação? O que entendemos por Inclusão?
Em educação especial é o ato de incluir pessoas portadoras de necessidades especiais na plena participação de todo o processo educacional, laboral, de lazer, etc., bem como em atividades comunitárias e domésticas. (Aurélio). Só que aqui não estamos falando em “educação especial”, todos nós aqui fazemos parte da “educação”, sem nenhuma restrição, sem nenhum favorecimento especial, sem nenhum preconceito. Ou seja, nossa educação não se restringe às pessoas chamadas “Portadoras de Necessidades Educacionais Especiais” (PNEE); é para todos. E se entendemos que todos somos especiais e que todos, por natureza, temos nossas necessidades, a educação especial é para todos. Isto é, deve ser chamada apenas de educação, não havendo a necessidade de outra educação, diferente do que a educação.
“O termo "necessidades educacionais especiais" refere-se a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades educacionais especiais se originam em função de deficiências ou dificuldades de aprendizagem. Muitas crianças experimentam dificuldades de aprendizagem e, portanto possuem necessidades educacionais especiais em algum ponto durante a sua escolarização.
Somos todos seres únicos e irrepetíveis, mas o modo como muitas escolas estão organizadas não permite dar resposta efetiva aos diferentes. E nos diferentes eu incluo os que, não tendo sinais exteriores de “deficiência”, completam a escolaridade básica sem aproveitamento e vão engrossar as fileiras dos desqualificados. É indispensável alterar o modo de organização de muitas escolas e interrogar práticas educativas hegemônicas. Será preciso reconfigurar as escolas para que se concretize uma efetiva diversificação das aprendizagens, que tenha por referencia uma política de direitos humanos, que garanta oportunidades educacionais e de realização pessoal para todos.



Como o educador pode se posicionar de forma que construa pedagogia da exclusão?


Os gordos, os indisciplinados, os filhos de lares pobres, os filhos de negros ou índios ou outras raças diferentes à branca (minorias lingüísticas, étnicas, ou culturais), os PNEE, os diferentes em geral (mas diferentes a que ou a quem?)
“A exclusão escolar manifesta-se das mais diversas e perversas maneiras, e quase sempre o que está em jogo é a ignorância do aluno diante dos padrões de cientificidade do saber escolar” (Mantoan, 2003, p.18).
A escola trabalha com uma estrutura homogênea (que é falsa) e não consegue aceitar a diversidade (que é real). Desde este ponto de vista, qualquer um pode ser marginalizado na e da escola. E prefiro mesmo dizer marginalizado, pois, permanecem “na” escola, porém não estão “com” a escola; podem até permanecer “na” sala de aula, mas não estão “com” a turma; estão à margem da turma, à margem da escola, à margem da educação e, conseqüentemente, à margem da sociedade. E não há do que se estranhar se passam de marginalizados a marginais; uma vez que foram postos de lado pela sociedade, podem passam a viver à margem das normas éticas e legais, viram fora-da-lei.
O problema da não inclusão escolar é esse. Você pode excluir da escolar, botar para fora, não deixar que façam parte dela; porém, não há como excluir alguém da sociedade, botá-lo para fora dela. O não incluído na escola, continua fazendo parte da sociedade. E o que é pior, geralmente, passa a ser um peso, um incômodo, uma carga para a sociedade. É o que acontece com a maioria dos deficientes físicos e outros muitos que, por motivos vários, não conseguiram entrar ou permanecer na escola, não conseguem aprender a ser auto-suficientes e se tornam um problema, ainda maior, para seus familiares e a sociedade em geral, uma vez que o número dos marginalizados é muito grande.
O tema da diferença atravessada pelos dispositivos de exclusão e suas implicações na formação da subjetividade, é significativo e desafiador para todos educadores que se dedicam a pensar a educação, e a educação especial de modo particular.
Alguns de nós somos reconhecidos em nossos discursos e práticas, outros não. Alguns de nós somos percebidos como “normais” outros não. Alguns de nós temos acesso á educação, á cultura, á socialização, á reprodução, ao trabalho, outros não. Somos todos participantes desse jogo, pois as formas de exclusão são próprias da civilização, como diz Foucault, esclarecendo que os regimes de verdade que se instalam- e constituem a cultura de uma época- trazem consigo diferentes formas de exclusão, juntamente com as ironias e contradições que permeiam esses processos, mostrando que as separações são paradoxais porque produzem, ao mesmo tempo, resistências, contemporâneas e integráveis ás estratégias de poder.

Lembrando de Marsha Forest, inclusão é “estar com o outro e cuidar uns dos outros”, dizer “seja bem-vindo!”. Inclusão trata de como nós lidamos com a diversidade, com a diferença de uma maneira positiva (provocando bons afetos). Sabemos que não somos todos iguais e tratamos a diversidade e a diferença com gratidão e respeito.
Para construir uma sociedade com mais aceitação, mais amor, mais cuidado e compaixão, devemos nos esforçar por incluir, acolher a todos, sem exceção. “Acreditamos que as comunidades com diversidade sejam mais ricas, melhores e lugares mais produtivos para viver e aprender. Acreditamos que comunidades inclusivas tenham a capacidade de criar o futuro. Queremos uma vida melhor para todos. Queremos a inclusão!” (Forest)
Incluir é uma questão de vontade. Vontade de todos para acolhermos a todos. Inclusão é incluir não só os alunos, mas também, os pais, a comunidade e os professores. E, o que é incluir os professores? É dar-lhes apoio, orientação, capacitação, recursos tecnológicos, treinamento para bem usufruir dos mesmos, etc. não basta o direito a inclusão; é preciso assegurar a inclusão.



Em relação ao parágrafo da musica Sampa de Caetano Veloso

“Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rostoChamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gostoÉ que Narciso acha feio o que não é espelhoE à mente apavora o que ainda não é mesmo velhoNada do que não era antes quando não somos mutantes”...

A música nos mostra que muitas vezes, o que incomoda é o “estranho em nós”, aquilo que percebemos como diferente em nós mesmos e como o qual não queremos nos defrontar. Assim, rejeitamos nos demais aquilo que não podemos tolerar.
Afasta o que não conhece porque apavora nossa mente. O novo, o diferente esta sempre colocando a prova, o que faz com que vivenciem sentimentos de angustia, despreparo.
Ou seja, as suas percepções e reações frente aos acontecimentos, aos objetos e às outras pessoas estão intimamente ligadas ao que é e ao modo como este se vê, com seus valores e características pessoais.
Deste modo, a qualidade das relações que estabelecemos com o mundo e com os demais, é fator importante na formação do autoconceito, sem ser unicamente uma simples reprodução da forma como o indivíduo é percebido pelos demais, sendo construído fundamentalmente a partir das percepções e representações sociais em relação aos outros significativos.
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CONCLUSÃO

O ser humano antes de ser racional, ou qualquer outra coisa, é um ser vivo, por isso, o assunto que cumpre um papel de relevância nas inquietações da alma de qualquer pessoa deve ser a vida, e qualquer outro assunto estudado só faz sentido se estiver, de uma maneira ou outra, ligado à vida.
Como nos ensinou Marsha Forest: “acolher pessoas com diferenças desafiantes em nossas escolas e comunidades não é simplesmente para o bem delas; é antes para o bem de nossa própria saúde e de nossa própria sobrevivência”. O que será de mim quando eu estiver velho? Se eu, agora, não ensinar as crianças a serem inclusivas, acolhedoras, quando chegar a minha velhice, provavelmente, elas me esquecerão.
Incluir também é isso. É pensar no outro, respeitá-lo, saber que ele tem uma grande importância, pois representa uma grande parcela da população que, independente das dificuldades que tenha, também é humana, é cidadã, é capaz.
O nosso Mestre queria tirar a sociedade da submissão, da passividade, lutando para que eles soubessem ler e interpretar o mundo, criando, assim, uma tática educativa para esclarecer politicamente o povo brasileiro. Se acreditamos que a educação tem um papel importante para a formação do indivíduo e que desta formação surgem relações que transformam a realidade social, é necessário apontar as possibilidades de construção de uma nova ordem, pois como foi dito, a educação pode servir tanto para a libertação quanto para a opressão do homem. Portanto, podemos concluir que a educação tanto serve para a domesticação quanto para a libertação do homem, por isso é importante fazer uma análise da conjuntura política e histórica do contexto da educação de jovens e adultos para ampliar a visão e entender os interesses que influenciaram as concepções de ensino em nosso país, e tentar reconstruir uma nova ordem, pautada em práticas diferentes das que foram construídas no passado brasileiro.

Karmem Amambahy

Trabalho apresentado no curso de Especialização em Práticas Interdisciplinar e Gestão Escolar como um dos pré-requisitos para a obtenção de nota da disciplina de Teorias e Dificuldades de Aprendizagem sob a orientação do Mestre Wanderly Vitorino



REFERENCIAS:

SANTOS, B. S. Entrevista com o professor Boaventura de Souza Santos. http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/boaventura/boaventura_e.html
INCLUSÃO Revista da Educação Especial/Secretaria de Educação Especial.V.4,Nº.2 Julho/Outubro2008
FOREST, Marsha e PEARPOINT, Jack. Exclusão: um panorama maior. Disponível em: http://www.associacaosaolucas.org.br/educacao_inclusiva_12.htm
MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão Escolar: O que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003

FREIRE, Paulo Pedagogia do Oprimido, 17ª Ed. Rio de Janeiro, Paz e terra, 1987

Inclusão e autoconceito: reflexões sobre a formação de professores Disponível em: http://coralx.ufsm.br/revce/revce/2006/01/a3.htm